No momento de maior impacto do zapatismo, quando o "comandante Marcos", o ex-chanceler Manuel Camacho Sols, o bispo Samuel Ruiz e os delegados indgenas eram enquadrados na capela da catedral de San Cristbal de las Casas por cmeras de TV de todo o mundo, alguns dos que nos encontrvamos ali comeamos a armar uma hiptese  qual chamamos "golpe de timo".

No nos parecia lgico que o regime, levando em conta a personalidade do presidente Carlos Salinas, estivesse amolecendo diante do conflito de Chiapas, que se aproximava cada vez mais de uma guerra civil e do contgio para o resto do pas -com um presidente diminudo, um Nafta sob questionamento, um mediador da paz ocupando o primeiro plano j por muitos dias e um candidato oficial cujos discursos se perdiam em espaos recnditos da imprensa.

Aquela hiptese previa um cenrio de reforma agrria, acertado com alguns proprietrios importantes da regio, que pusesse as organizaes indgenas e camponesas ao lado do regime, evitando a tendncia natural delas de alinhar-se ao zapatismo. Se aproveitaria a presena daquele aparato de imprensa para dizer ao mundo que o Mxico no  Amrica Central e que, apesar de Chiapas se encontrar, por particularidades histricas, naquela situao de injustia e concentrao de renda, o governo mexicano sempre se havia caracterizado por encontrar solues que fossem ao fundo dos problemas.

Como Chiapas  um caso excepcional, seria possvel decretar uma trgua nacional s vsperas das eleies. Tal cenrio se enquadraria com o j clssico golpe espetacular que sempre ocorre no ltimo ano de cada perodo de seis (o ano eleitoral) e recolocaria no centro o presidente e seu candidato, Luis Donaldo Colosio, com autoridade e legitimidade.

Conforme o tempo passava e no se tomava nenhuma medida, o princpio da ordem degenerava aceleradamente no pas. No plano social, recomearam as tomadas de terras e os assassinatos de camponeses e dirigentes sindicais. Junto a isso, surpreendeu o sequestro de um dos mais importantes lderes empresariais.

No plano poltico, testemunhamos atnitos um novo cisma na "famlia revolucionria" (o governista Partido Revolucionrio Institucional), quando se tornaram pblicos os ataques recprocos entre Camacho Sols e Colosio. No econmico, chegou-se ao extremo de ver a Bolsa reagindo hora a hora aos rumores sobre o lanamento ou a renncia de Camacho  candidatura presidencial.

O desenlace, porm, no veio na forma do "golpe de timo" com reforma radical, mas foi precipitado pelas duas balas que tiraram a vida de Colosio. Mas o resultado, surpreendentemente, foi o mesmo no que se refere  reconstituio do princpio da autoridade.

Uma hora aps a morte de Colosio -na realidade minutos depois de o pblico receber a trgica notcia-, Octavio Paz pedia um "basta aos excessos verbais e ideolgicos de alguns intelectuais e jornalistas" e s "numerosas e irresponsveis apologias da violncia".

Acrescentava Hctor Aguilar Camn, um dos intelectuais do governo Salinas: "Durante trs meses assistimos  consagrao jornalstica da violncia.  impossvel desvincular o assassinato de Colosio do ambiente de prestgio e moda que deu  violncia chiapaneca o perfil de um pico, mais do que o de uma desgraa".

Com a morte de Colosio vivemos tambm a morte poltica de Camacho. A opinio pblica no teve tempo de se expressar a respeito: foi substituda por caminhes de ambulantes e agricultores carregados pelo PRI desde Ciudad Nezahualcoyotl e Chalco, que repudiaram Camacho, o mediador da paz, no velrio de Colosio.

O assassinato funcionou, assim, como instrumento para desqualificar manifestaes polticas que, como o zapatismo, haviam conseguido espao na opinio pblica. Funcionou de maneira igualmente drstica no interior das instituies estatais -como uma purga poltica, uma volta  disciplina cega, uma intimidao da liberdade de expresso: de um golpe estava de volta a unidade hermtica da "famlia revolucionria", como ficou mais do que claro com a nomeao de Ernesto Zedillo e a proibio de que as correntes do PRI se manifestassem publicamente sobre qualquer candidato.

Mas talvez o que era o maior obstculo a superar para o Estado e seu partido se tenha transformado, com esta morte, em seu maior aliado -pois conseguiu-se transformar o "voto de castigo", que os polticos priistas vinham carreando e que se aguou com o ocorrido em Chiapas, em voto de simpatia e comiserao diante da injusta morte de quem acabou como mrtir. O desprezo pelo PRI se converteu em sentimento de culpa.

Outra reacomodao de grande significado: o Conselho Estatal de Organizaes Indgenas e Camponesas (as 280 organizaes que recentemente haviam reconhecido o EZLN como fora beligerante) props a suspenso imediata dos planos para ocupao de terras em Chiapas e em todo o pas. "Queremos que haja uma trgua devido  situao de insegurana que se vive atualmente", disseram.

Enquanto alguns intelectuais desqualificavam o zapatismo na capital, o EZLN declarava: "Nos vemos obrigados a suspender a consulta (sobre as propostas de paz) e a preparar-nos para defender nossa causa e nossa bandeira. O EZLN lamenta profundamente que a classe governante no possa resolver seus conflitos internos sem ensanguentar o pas. Com o argumento de que  necessrio endurecer o regime para evitar assassinatos como o do sr. Colosio, pretende-se dar sustentao poltica e ideolgica  represso indiscriminada e ao injustificvel rompimento do cessar-fogo e, por extenso, do dilogo pela paz. Vir a ofensiva tantas vezes acariciada pela 'linha dura' governamental."

Aos cidados no resta mais do que juntar o que vai chegando. Em comunicado que surgiu no dia seguinte  nomeao de Zedillo, um grupo de deputados do PRI dizia: "Nos ltimos dias aflorou o interesse por traduzir a justa indignao popular e a incerteza que o crime poltico trouxe ao nosso candidato numa justificativa para impor uma 'linha dura' e um clima excludente em nossa vida pblica".

Os casos bem-sucedidos de globalizao de pases dependentes, como Coria do Sul, Formosa, China e Chile (exceto este nos anos recentes), se basearam no autoritarismo estatal e se mostraram pouco compatveis com reformismo poltico e democracia. "Golpe de timo", reformismo radical? Que hiptese mais ingnua!

Ser por acaso que, diante do relaxamento da "ordem" em que comeou o ano de 1994, e com achaques a atores sociais, jornalistas e intelectuais "irresponsveis" (como se a desordem brutal no fosse gerada dentro do prprio modelo), o regime est dando mostras de encaminhar-se para a via autoritria, suprimindo suas correntes conciliadoras?

